|
Resumo
A magnitude com que ocorre a deficiência de ferro e as
conseqüências deletérias que ocasiona e justificam a busca de
intervenções para seu controle. Uma estratégia para corrigir
e/ou prevenir a deficiência nutricional é a fortificação de
alimentos básicos. Os objetivos deste trabalho foram avaliar o
consumo de um arroz fortificado com ferro em uma população
vulnerável, e seu efeito na concentração de anemia, após 3
meses. A viabilidade da compra do produto foi avaliada pela
relção entre rendimento e preço do arroz fortificado e do
tracional. A concentração de hemoglobina foi medida pelo
"Hemocue (R)". O consumo médio do arroz fortificado com ferro
foi de 60g por dia que representa 1,3mg de ferro. O arroz
fortificadoé 14% mais caro que o arroz convencional, compensado
pelo seu rendimento1,4 vezes maior. Ocorreu um aumento
estatisticamente significante na concentração média de
hemoglobina de 0,5g/dL e 1,0g/dL entre anêmicos. A ocorrência de
anemia diminuiu em 38,5%. O consumo contínuo e generalizado
doméstico ou em programas institucionais do arroz fortificado
com ferro é uma importante contribuição para o controle da
anemia.
MARCHI, R.P.;
SZARFARC, S.C.; RODRIGUES, J.E.F.G. Consumption of fortified
rice in profilaxis of iron deficiency.
Nutrire: rev. Soc. Bras. Alim. Nutr.= J. Brazilian Soc. Food
Nutr., São Paulo, SP, v. 28, p. 53-64, dez. 2004.
Raquel Parra Marchi (1); Sophia Cornbluth Szarfarc (2); Jussara
Emilia Ferreira Guerra Rodrigues (1,3)
(1)Programa de Pós-Graduação "Interunidades em Nutrição Humana
Aplicada" FCF/FSP/FEA - USP. (2) Departamento de Nutrição -
Faculdade de Saúde Pública - USP. (3) CELANEM - Centro Latino
Americano de Nutrição e Estudos Metabólicos.
Endereço para correspondência: Departamento de Nutrição -
Faculdade de Saúde Pública - Universidade e São Paulo
Raquel Parra Marchi - Rua Barata Ribeiro - 284 - apto. 184 -
Bela Vista - São Paulo, SP CEP: 01308-000
E-mail: raquelpm@usp.br
Palavras-chave: anemia ferropriva; fortificação; arroz; ferro.
Introdução
A totalidade dos estudos de intervenção no controle de anemia,
mostra de forma inequívoca que o aumento da ingestão de ferro,
como suplemento medicamentoso ou como alimentos fortificados,
resulta em um efeito altamente positivo. No entanto, estudos
epidemiológicos têm evidenciado o aumento da ocorrência desse
distúrbio nutricional em grandes contingentes populacionais de
todos os níveis socioeconômicos e nas diversas faixas etárias
(WHO, 2001).
Diante da elevada prevalência da anemia e das conseqüências
deletérias que acarreta, é indispensável e urgente a implantação
de intervenções que controlem, de forma profilática e
permanente, deficiência de ferro. A fortificação de alimentos
básicos com mineral, apresenta-se como a opção mais interessante
para os segmentos da população em geral e/ou grupos
populacionais específicos (WHO, 1992; BRASIL. Ministério da
Saúde, 1999), constituindo-se numa medida de baixo custo, de
alta efetividade e flexibilidade, rápida aplicação e socialmente
aceita, por não demandar mudanças na rotina alimentar dos
indivíduos.
Com relação aos compostos utilizados no controle da anemia por
deficiência de ferro, o ferro bisglicina quelato (Fechel"), tem
apresentado resultados superiores aos obtidos com outros
compostos (PINEDA et al. 1994).
Cabe mencionar que há diversos critérios que caracterizam o
mineral quelato como nutricionalmente funcional: 1º) o seu baixo
peso molecular possibilita a transferência do ferro do soro para
os tecidos; 2º) a estabilidade constante do aminoácido quelato
impede a molécula de ser destruída no intestino, e permite ao
quelato atravessar a membrana da célula intestinal, intacto, com
o metal; 3º) o ligante (aminoácido glicina, no caso) é
facilmente metabolizado pelo organismo, e utilizado como
nutriente em adição de metal nele contido (ASHMEAD, 2001).
NO que se refere às análises de viabilidade econômica, na década
de 70, BERG (1973) expôs alguns critérios, considerados
fundamentais para a escolha de alimentos passíveis de
fortificação: o alimento (veículo) fortificado, deveria ser
consumido numa quantidade considerável pela população alvo,
deveria haver boa aceitação do produto pela população
beneficiada e o alimento, uma vez enriquecido, deveria manter o
seu preço de mercado (baixa elasticidade-preço da demanda).
Ao considerar os critérios econômicos postulados por BERG
(1973), para a escolha do alimento mais apropriado para ser
fortificado, o arroz apresenta-se, no Brasil, como o mais
promissor. Esse alimento faz parte da dieta da totalidade da
população brasileira (IBGE, 1977; IBGE 1998a,b) desde o desmame
(ANDRADE, 2001). Ele integra a cesta básica, contribuindo de
forma importente para o fortalecimento de energia (GALEAZZI et
al., 1997), além de apresentar a vantagem sobre os outros
cereais por estar inserido em refeições muito bem definidas e
diárias, tendo portanto, um consumo per capta freqüente.
Tendo em vista o exposto, este trabalho teve por objetivo,
avaliar a viabilidade do consumo de um arroz fortificado com
ferro na concentração de hemoglobina e na ocorrência de anemia,
em uma população de pré-escolares.
Metodologia
O trabalho foi desenvolvido em duas creches assistenciais de Poá
e Mogi das Cruzes - SP, durante um período de três meses, entre
127 crianças, cujas idades veriaram entre 6,6 a 42, 1 meses
atendidas com 3 refeições diárias (desjejum, almoço e jantar), e
em horário das 7:30h às 17:00h, de segunda à sexta-feira,
características estas, similares às das creches pública.
O arroz fortificado contém 2,1mg de ferro adicional em 100g de
arroz cozido. Foi calculada uma média de consumo per capta,
considerando-se a semelhança de consumo detectada nos diferentes
grupos de idade e de gênero. O consumo médio do cereal foi
estimado através do método de pesagem direta dos alimentos, que
consiste na pesagem oferecida e na pesagem do resto-ingestão.
Realizou-se a diferença entre a quantidade de arrozque foi
oferecida para todas as crianças, de acordo com cada grupo
etário e o restante global de cada um dos grupos, dividindo-se
pelo número de crianças presentes, corrigido por percentual de
40% do resto-ingestão de arroz (CARDONA, 1999). Padronizam-se as
medidas dos utensílios no porcionamento e distribuição (panelas,
vasilias, escumadeiras, pratos). Utilizou-se uma balança Vicris
(qualidade Filizola) com capacidade de 6kg e divisões de 5g.
A viabilidade de compra do produto fortificado foi ferificada,
por meio de relação, entre o rendimento e preço comparativamente
com o produto tradicional, realizando-se uma estimativa de
custo, por meio de levantamento de preços em supermercado, do
arroz comum e fortificado.
Para análise do efeito do consumo do arroz fortificado com
ferro, nos níveis de hemoglobina e na freqüência de anemia,
foram avaliadas 64 crianças que não estavam ingerindo ferro
suplementar, que não apresentaram anemia grave (HB< 9,5g/dL) e
as que não foram diagnosticadas com condição patológica severa.
Na avaliação de concentração de hemoglobina foi utilizado o
micrométodo colorimétrico de leitura direta, por meio de punção
digita, utilizando-se o equipamento "Hemocue (R) (VAN SCHENCK et
al., 1986 JOHNS e LEWIS, 1989). Para classificar as crianças de
acordo com o estado de anemia, utilizou-se o critério proposto
pela OMS (1975), que define anemia moderada, quando osa valores
de hemoglobina estão acima de 9,5 e inferiores a 11,0g/dL e
anemia grave, quando os valores são iguais ou inferiores a
9,5g/dL, e baseou-se no ponto de corte, segundo faixa etária, da
WHO (2001), que estabelece o nível de hemoglobina de 11,0g/dL
para crianças de 6-59 meses.
Empregaram-se os testes estatísticos: Mc Nemar, Teste t pareado,
Análise de Variância com Medidas Repetidas e Teste t para
amostras independentes. Adotou-se para nível de significância o
valor de p menor que 5%.
O estudo "Consumo de arroz fortificado com ferro na profilaxia
da deficiência do mineral", foi aprovado pelo Comitê de Ética da
Faculdade de Saúde Pública da USP, estando de acordo com os
requisitos éticos e normas que egulamentam pesquisas envolvendo
seres humanos - Resolução 196/96 do Conselho NAcional de
Saúde/Ministério da Saúde, 1996.
Resultados
A substituição do arroz comum pelo fortificado não motivou
quaisquer intercorrências indesejáveis atribuíveis à mudança do
produto alimentar, havendo uma excelente aceitação do cereal,
constatada pela quantidade mínima de resto-ingestão. As crianças
ingeriram um per capta médio de arroz de 60g, quantidade que
veículou 1,3mg de ferro adicional. De acordo com a Dietary
Recommended Intakes (DRI, 2001), que preconiza uma ingestão
diária de 11mg de ferro elementar para crianças de 7 a 12 meses
e de 7mg para crianças de 12 a 36 meses, infere-se que o ferro
veículado pelo arroz atendeu a 11,8% da IDR para lactentes (7-12
meses) e 18,6% da IDR para crianças de 12-36 meses.
Em termos de absorção, considerou-se que 13% do mineral foram
retidos pelo organismo não ferro deficiente (BOVELL-BENJAMIN et
al., 2000). Vale ressaltar, que com relação ao Fechel", PINEDA e
ASHMEAD (2001) demosntraram aumento da absorção em até 90%,
entre grupos gravemente anêmicos.
Na população estudada, considerando a capacidade potencial de
absorção do FECHEL(R), descrita acima, houve um aproveitamento
mínimo de 0,17mg de ferro por dia. O Quadro 1 mostra a
representatividade percentual dessa quantidade, no atendimento
das necessidades marciais, de acordo com a faixa etária.
|
Idade |
Necessidade (mg/dia) |
(%) |
|
4-12 meses |
0,96 |
18 |
|
13-24 meses |
0,61 |
28 |
|
2-5 anos |
0,70 |
24 |
Fonte: Quadro adaptado de WHO 1989 (DeMaeyer).
Quadro 1 Necessidade de ferro, segundo faixa etária e percentual
de antendimento
Considerando-se viabilidade de compra do produto fortificado, já
disponível no mercado varejista, verificou-se que o arroz
convencional custa, em média, R$2,22, enquanto o preço médio do
arroz parboilizado fortificado com ferro é de R$2,53 (Pesquisa
de mercado, São Paulo, 2004). O rendimento do primeiro é 1:2,
enquanto o arroz parboilizado com ferro rende 1:2,8, ou seja,
35g de arroz cru correspondem a 100g do produto cozido.
Com relação à condição hematológica, a Tabela 1 apresenta a
comparação de concentração de hemoglobina média inicial e final,
segundo faixa etária, para as 64 crianças.
Tabela 1 Concentração média de hemoglobina inicial e final,
segundo faixa etária.
Creches - SP, 2002
|
Faixa etária
(meses) |
N |
% |
Hbi (g/dL)
X (dp) |
Hbf (g/dL)
X (dp) |
Nível
Descritivo(p) |
|
<
24 |
21 |
32,8 |
11,1 (1,10) |
11,2 (0,99) |
0,758 |
|
> 24 |
43 |
67,2 |
11,4 (0,91) |
12,0 (1,05) |
< 0,001 |
|
Total |
64 |
100,0 |
11,3 (0,98) |
11,8 (1,09) |
0,004 |
De acordo com os grupos estários definidos no estudo, a evolução
da hemoglobina foi estatisticamente diferente (p=0,006).
Observa-se uma evolução estatisticamente significante (p<0,001)
na média do indicador hematológico, após a intervenção, entre as
crianças maiores de 24 meses, não ocorrendo o mesmo com o grupo
estário inferior a 24 meses (p=0,758). O teste t pareado
aplicado a toda população, demonstrou significativa evolução do
nível de hemoglobina, com um incremento médio de 0,5g/dL (t=
-3,001; p=0,004).
A Figura 1 apresenta a distribuição de freqüências acumuladas
das concentrações iniciais e finais de hemoglobina.
Gráfico
Figura 1 Distribuição das freqüências acumuladas das
hemoglobinas iniciais e finais, da população do estudo. Creches
– SP, 2002
O desvio da curva na Figura 1 demonstra uma diminuição da
freqüência de níveis de hemoglobina inferiores a 11 g/dL após a
intervenção, indicando uma redução da proporção de crianças
anêmicas.
A freqüência de anemia pré e pós intervenção, na população
estudada, é ilustrada na Tabela 2.
Tabela 2 Freqüência de anemia pré e pós intervenção, na
população estudada. Creches – SP, 2002
|
Valores finais |
|
[Hb] g/dL |
< 11,0 |
>
11,0 |
Total |
|
< 11,0 |
9 |
17 |
26 |
|
>
11,0 |
7 |
31 |
38 |
|
Total |
16 |
48 |
64 |
P=0,064
Embora não tenha sido observada doferença estatisticamente
significante (p=0,064), notou-se uma tendência à diminuição na
proporção de anemia (Tabela 2).
O incremento médio da concentração de hemoglobina entre anêmicos
de 10,4g/dL para 11,4g/dL, foi estatisticamente maior quando
comparado ao aumento observado entre as crianças não anêmicas
(p=0,003).
Discussão
A alimentação inadequada é o fator de maior relevância na
deficiência de ferro. A maioria dos estudos de diagnóstico,
demonstra que a dieta é o principal fator determinante da
anemia, não só pela quantidade de ferro veiculada, insuficiente
para atender a demanda nutricional, mas pelo potencial de
biodisponibilidade das diferentes refeições (MONTEIRO et al.,
2000a).
Uma família que consome uma dieta insuficiente para atender a
demanda de ferro, estará sujeita a sofrer dos efeitos adversos
da anemia. Embora, os grupos de pré-escolares e gestantes sejam
os mais sensíveis em relação à deficiência de ferro, decorrente
de situações fisiológicas específicas, todos os grupos
populacionais, especialmente dos países em desenvolvimento, são
vulneráveis à anemia, inclusive homens adultos (Quadro 2).
|
% da população total afetada em |
|
Países |
Crianças |
Homens |
Mulheres |
Idosos |
|
0-4 anos |
5-14 anos |
15-59 anos |
Gestantes |
Todas
15-59 anos |
+ 60 anos |
|
Industrializados |
20,1 |
5,9 |
4,3 |
22,7 |
10,3 |
12,0 |
|
Não industrializados |
39,0 |
48,1 |
30,0 |
52,0 |
42,3 |
45,2 |
Fonte: WHO, 2001.
Quadro 2 Porcentagens estimadas de prevalência de anemia
(1990-95) baseadas na concentração de hemoglobina
Considerando esta situação (Quadro 2 ), fica óbvio que o
controle ideal da deficiência de ferro deveria ser dirigida para
a família, evitando dessa forma, as situações críticas
encontrada entre os grupos mais vulneráveis à anemia. É, pois,
fundamental que todos os componentes de uma família possam ser
beneficiados por meio de intervenções, que minimezem as
conseqüências fisiológicas e sociais deletérias (perda de auto
estima, isolamento, discriminação, resistência à fadiga
diminuída, diminuição de capacidade de trabalho) (THE
MICRONUTRIENT..., 1997), algumas das quais irreparáveis e que se
comprometem a inserção dos indivíduos na sociedade. Na gestante,
a anemia associa-se ao aumento dos riscos de morbidade e de
mortalidade materna e fetal, aumento de risco de abortos,
natimortos e baixo peso ao nascer. Na criança, o aumento da
morbidade e da mortalidade infantil, bem como alterações no
desenvolvimento psicomotor e na função cognitiva, têm sido
constatadas (OVERVIEW, 1998; WHO, 2001).
Apesar da modificação do padrão alimentar da população
brasileira, verificada nos últimos anos, principalmente com
relação aos alimentos fontes de ferro, particularmente o feijão
(GALEAZZI et al., 1997; MONTEIRO et al., 2000b), a freqüência
com que o arroz é consumido, embora diminuída sua aquisição
alimentar domiciliar anual, de acordo com a série histórica (30
anos) de pesquisas do IBGE, continua representativa em termos de
contribuição energética (IBGE 2004).
No entento, como ilustra o Quadro 3, a biodisponibilidade do
mineral dependerá do composto fonte de ferro. Uma estimativa
visando a seleção de alimentos para serem fortificados com
ferro, mostra o consumo diário de cereais como arroz, macarrão,
biscoito e pão e a capacidade de absorção de ferro suplementar
nesses alimentos simulados com fortificação.
|
Alimentos |
Arroz |
Leite |
Macarrão |
Biscoito |
Pão |
Total |
|
Consumo diário |
264g |
330ml |
33g* |
27g** |
76g |
Fe supl. |
|
[Fe] mg |
6,0 |
9,4 |
0,9 |
0,9 |
1,6 |
23,9 |
|
FeSO4 3% absorção |
0,33 |
0,21 |
0,04 |
0,03 |
0,10 |
0,70 |
|
FeChel® 13% absorção |
1,44 |
0,91 |
0,18 |
0,14 |
0,42 |
3,09 |
*consumo de macarrão x 1,5 dias/7 dias;
**consumode biscoito x 3,5 dias/7 dias;
Fonte: ANDRADE, 2001
Quadro 3 Estimativa da capacidade potencial de absorção do
ferro suplementar em alimentos simulados com fortificação
Assim sendo, o arroz aparece como alimento mais adequado para
veicular o mineral em pauta (Quadro 3).
Com relação ao custo, a substituição do arroz convencional pelo
arroz paboilizado fortificado com ferro, representa um acréscimo
de aproximadamente 14% na despesa. No entanto, a diferença no
preço é, certamente, compensada pelas características que a
parboilização traz ao produto, como o alto rendimento (1,4 vezes
maior) em relação ao arroz tradicional, melhor conservação após
o cozimento, fácil digestibilidade, alto valor nutritivo em
termos de vitaminas, sais minerais e aminoácidos (FONSECA et
al., 1983), além do ferro suplementar incorporado ao produto
ser, como já descrito, de excelente capacidade potencial para
ser absorvido.
Apesar do pouco tempo de intervenção e, especialmente,
considerado a natureza profilática da fortificação com ferro, as
descrições das Tabelas1 e 2 e da Figura 1, expressam um
resultado altamente promissor do uso do arroz fortificado no
controle da deficiência de ferro.
Ressalta-se mais uma vez, a grande prevalência da deficiência de
ferro encontrada neste estudo, que não difere de resultados
descritos em outros trabalhos realizados em creches (FISBERG et
al., 1995; FISBERG et al., 2000). Das 63 crianças excluídas da
avaliação da eficácia da intervenção, 87% apresentam-se
ferro-deficientes, justificando a urgência na implantação de
atividades de controle da carência marcial. Vale ressaltar que
as crianças diagnosticadas com anemia grave (Hb<905g/dL),
no estudo, foram submetidas ao tratamento medicamentoso com
ferro suplementar.
A Tabela 1 apresenta a influência da idade na evolução da
concentração de hemoglobina. Certamente, o consumo limitado de
alimentos sólidos, acrescido à velocidade relativa de
crescimento, entre as crianças com idade inferior a 2 anos,
justificariam o resultado inesperado encontrado entre elas.
Outro fator determinante poderia ser o absenteísmo escolar,
comum nesta faixa etária. Entretanto, é indiscutível o efeito da
idade na freqüência de anemia, aumentando dos 6 aos 12 meses,
quando atinge o seu pico de ocorrência, reduzindo-se lentamente
até os 23 meses, pára a partir desse ponto, descrever uma curva
de franco declínio (OSÓRIO et. Al., 2001; FERREIRA e BATISTA
FILHO, 2002). NO presente estudo, a idade seria uma importante
variável de confusão, podendo-se conjectuar que a eficácia da
intervenção estaria incluindo a resposta natural da variável na
comparação “antes e depois”, embora tal suposição não possa ser
julgada com algum grau de objetividade.
A Figura 1, por sua vez, mostra a diminuição de valores que
identificam a anemia (Hb<11,0g/dL), após a intervenção. É
necessário recordar que, na análise do efeito do arroz
fortificado na ocorrência da deficiência de ferro, foram
eliminadas as crianças com anemia grave, as que já estavam
recebendo suplemento de ferro e aquelas com problemas de saúde.
O fenômeno de regressão à média, por issu, somente foi observado
entre as crianças que apresentaram níveis de hemoglobina
elevados no início do estudo.
Na Tabela 2, observa-se uma tendência ao declínio da anemia após
a intervenção (p=0,064). Em valores percentuais, a proporção de
anemia declinou de 4006% para 25%.
A ocorrência de anemia pós-intervenção, no presente estudo,
entre crianças não anêmicas inicialmente, já foi resultado de
outros trabalhos. A dosagem de ferritina sérica poderia
justificar esse fato, tendo em vista que a condição hematológica
das crianças acompanhadas, só foi avaliada pela concentração de
hemoglobina. Neste grupo de crianças, as baixas reservas de
ferro somadas a algum fator desencadeante, infecção por exemplo,
poderiam ser os responsáveis pelo aparecimento da anemia, mesmo
mesmo após a intervenção. Apesar de algumas crianças estudadas,
continuarem anêmicas, mesmo após a utilização do arroz
fortificado com ferro, 33,5% delas apresentam uma evolução
importante do indicador.
Considerando a ampla perspectiva que o arroz fortificado com
FeChel® oferece como o alimento selecionado para o controle da
deficiência marcial, vale a pena destacar que o IBGE (1998b),
com base em pesquisa sobre padrões de vida realizada no Nordeste
e Sudeste brasileiro, detectou que o arroz mantém-se como
alimento tradicional, em todos os grupos sociais (SICHIERI et
al., 2003).
A pesquisa de Orçamentos Familiares – POF de 2002-2003, mostrou
que o gasto médio com o cereal, na região Sudeste, dentre as
Gandes Regiões brasileiras estudadas, representou 7% do salário
mínimo, declinando para 6% entre as famílias que recebiam até 2
salários mínimos, baseando-se no salário mínimo de R$200,00,
vigente à época da pesquisa (IBGE, 2004).
Deve ainda ser destacado que o arroz, no Brasil, é o maior
fornecedor de energia na alimentação diária, independente da
classe de renda. Para a classe de rendimento mensal familiar
mais baixo (até 2 salários mínimos), o cereal contribui com 20%
das calorias diárias da dieta da população, baseando-se nos
dados da POF de 2002-2003 (IBGE, 2004).
Conclusões
A despeito da curta duração da intervenção do estudo, as
perspectivas para o consumo contínuo do arroz fortificado com
ferro, são extremamente animadoras, permitindo pressupor que seu
uso generalizado, quer domesticamente quer em programas
alimentares, resultaria numa importante contribuição para o
controle da deficiência de ferro, com alta relação de custo/
benefício.
A inclusão do arroz suplementado com ferro bisglicina quelato
nas refeições do pré-escolar, em escolas e creches assistenciais
ou públicas de educação infantil no Estado São Paulo, proposta
encaminhada para a Assembléia Legislativa (projeto de Lei
Estadual/SP n. 369, de 2003), mostra a grande mobilização
política em torno da deficiência de ferro
Vale a pena enfatizar que, a fortificação compulsória das
farinhas de trigo e milho com ferro (BRASIL, 2002), foi uma
demonstração de preocupação governamental nacional com as
deficiências nutricionais, representando um marco de relevância
no controle da anemia.
A exemplo do que está sendo proposto para a alimentação
institucional infantil, a implementação do arroz fortificado na
alimentação domiciliar e/ou institucional de famílias de baixa
renda (Programa de Apoio ao Trabalhador / PAT, merenda escolar,
cestas básicas, etc...) certamente representaria um avanço
significativo no atendimento do compromisso brasileiro de
redução da anemia por deficiência de ferro (FAO/WHO, 1992).
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